Joalharia: Fabrico nacional marca pontos lá fora, mas marcas nacionais ainda escasseiam


Apesar da afirmação recente da indústria joalheira e relojoeira nacional, os desafios de internacionalização são vários, sendo que a aceleração digital que trouxe a pandemia até pode beneficiar o sector no longo prazo.

Num sector que frequentemente passa despercebido entre os principais exportadores nacionais, a realidade mostra que o canal internacional é de uma relevância considerável e crescente, com o fabrico nacional a distinguir-se pela qualidade que confere aos trabalhos que executa. Apesar disso, os desafios de criação de marca e digitalização permanecem, algo que a Associação da Ourivesaria e Relojoaria de Portugal (AORP) quer combater, tendo para isso criado um conjunto de iniciativas e plataformas de apoio aos empresários dos relógios e joias.

Como é que o sector vinha a comportar-se antes da pandemia?
Antes da pandemia, o sector experienciava um momento inédito na sua história. Tinha um crescimento bastante consolidado, quer do volume de negócios, quer das exportações, e era um movimento bastante sólido, não um acontecimento esporádico, mas uma base de crescimento bastante consolidada. De acordo com os últimos números que temos, entre 2015 e 2018 houve uma subida do volume de negócios de 17%, e, entre 2015 e 2019, das exportações de 23%, que terminaram o ano de 2019 com o valor de 208 milhões de euros, isto num valor de negócios estimado de mil, 1,1 mil milhões de euros. É, portanto, algo bem consolidado, também fruto de uma aposta a pensar na conjuntura internacional, no pós-crise de 2009, e de uma aposta forte que a AORP teve na promoção da internacionalização, através de diversos apoios e campanhas que realizou.

Qual é a projeção internacional da relojoaria e joalharia nacional lá fora?
Acho que há um trabalho sólido que tem vindo a ser feito, quer pela AORP, quer pelas empresas. É uma reputação que se está a ganhar, é um trabalho recente de colocação, de exposição aos mercados estrangeiros, mas, na minha perspetiva, algo tem vindo a ser feito com sucesso, dado este crescimento das exportações. Há uma reputação criada, quer da qualidade do trabalho, quer da adaptabilidade, por uma série de fatores que nos distinguem dos nossos concorrentes. A capacidade de fazer, por um lado, uma produção mais volumosa e, por outro, responder a pequenas séries é algo que nos distingue e valoriza no panorama internacional.

Mas parece-lhe haver ainda espaço para as marcas portuguesas se projetarem mais internacionalmente?
Há aqui duas dimensões diferentes. Nós não temos, para já e infelizmente, uma grande tradição de marcas, ou seja, marcas portuguesas consolidadas não são ainda muitas. A vertente que tem estado mais exposta à internacionalização é o fabrico. Agora, criar uma marca é algo que não se faz de um dia para o outro; é um trabalho muito continuado, caro e exigente que, penso, só no passado mais recente tem sido valorizado pelas empresas nacionais. Não há ainda muitas que estejam vocacionadas para essa criação de marca. Trabalhamos sim para grandes marcas internacionais e com bons resultados, com grande aceitação e crescente procura. A parte da criação de marcas nacionais é ainda um desafio que, na minha perspetiva, as empresas nacionais têm de ultrapassar.

Começa, portanto, a haver um reconhecimento da qualidade do fabrico português?
Sim, acho que sim. A marca ‘Portuguese Jewelry’ (‘Joalharia Portuguesa’) tem um reconhecimento internacional que tem vindo a ser consolidado e essa consolidação é um processo crescente no qual nós, enquanto associação representativa do sector, investimos consistentemente.

Qual tem sido o impacto da crise pandémica no sector da relojoaria e joalharia, tanto em termos de operações, como de vendas?
Concordo com a divisão da análise nessas duas partes. Por um lado, em março e abril, num momento de desconhecimento e pânico, de não saber ainda o que se está a passar, o confinamento geral e o próprio estado de emergência levou ao encerramento de entidades certificadoras, de muitos fornecedores, houve uma grande quebra das cadeias de abastecimento. Logo aí houve esse primeiro impacto bastante significativo, o qual tentamos combater das mais diversas formas, desde exigir a abertura da contrastaria, quem faz a certificação de todos os nossos artigos, e também diversas ações de ajuda no sector, informando dos apoios disponíveis que as empresas necessitavam.

Entretanto veio este hiato do verão, que nos deu algum tempo para vir à tona respirar. Agora com estas segundas medidas impostas temos um outro aspeto: embora o online seja um bom canal de escoamento de produção, o facto de as lojas físicas terem de estar encerradas em alturas de grande volume de vendas, como a que vivemos agora, do Natal, logicamente traz um impacto muito significativo nos números das empresas. Ainda assim, com o que temos ouvido nos últimos dias, de um acalmar da pandemia que, espero, leve a um recuo nestas medidas, ainda há esperança de uma recuperação.

O que lhe têm transmitido os empresários do sector?
A maior preocupação do sector é a duração da pandemia. Está a ser muito difícil manter as empresas abertas para que, no fim da crise, se esteja pronto para recomeçar, que é um dos grandes objetivos das nossas ações e das próprias empresas. Temos de estar prontos para uma retoma que, espera-se, seja rápida, mas que continua a ser bastante lenta. Há alguns fatores que jogam contra isto, como a complicação das medidas, de não haver uma simplificação do que se tem de fazer. Tido isto causa confusão e preocupação nas empresas. Mas a maior dificuldade será a nível da tesouraria e, claro, das vendas, em que será difícil conseguir um nível que permita manter a maior parte das empresas em lume brando para, quando entrar a retoma, estas estarem prontas. Isso, juntamente com o facto de as medidas que chegam ao sector serem confusas e com bastantes condições prévias, que envolvem muitos esforços num sector que tinha um dia a dia já difícil. Não ter uma ajuda com medidas objetivas, claras e eficazes tem, parece-me, trazido algumas dificuldades ao sector.

Há alguma medida em específico que estes empresários defendam como importante para conseguir manter as condições mínimas de retoma?
Apoios a fundo perdido, a exemplo do que está a ser proposto para o comércio e restauração, acho que seria uma boa ajuda para que conseguissem aguentar e cumprir as suas responsabilidades neste período difícil. Isto além das medidas do lay-off, ter essa ajuda seria bastante benéfico para o sector.

Como é que as empresas ligadas à relojoaria e joalharia têm trabalhado para contornar as dificuldades que trouxeram estas restrições?
Esta nova realidade trouxe-nos algo que já era mais do que evidente, a digitalização. Em processos, vendas, operações, não há retrocesso neste passo. O processo já estava em curso, mas o tempo de pandemia encarregou-se de comprimir a escala temporal de execução da transição para esta realidade. Logicamente, as empresas precisam de continuar a produzir e temos todas as ferramentas para que isso seja feita de forma digital. A nível de escoamento de produtos, há aqui uma grande necessidade de capacitação para o digital. Muitas empresas, embora tivessem a criação de plataformas de venda ou comunicação com fornecedores e clientes nos planos, era algo que não estava no imediato. Agora, com esta compressão, claro que há uma necessidade de capacitação das empresas. Em relação a isso, a AORP já apresentou e vai lançar até ao final do ano o portal portuguesejewelry.pt, que permite às empresas que queiram ter uma primeira presença online ou até estar na nossa montra digital poder fazê-lo, ultrapassando essa fase de capacitação à qual podemos dar apoio.

Que partes do processo são mais digitalizáveis nesta indústria?
É uma indústria bastante heterogénea, com alguns artesãos a trabalharem ainda muito à base do manual, quase artesanal, uma arte, mas existe uma industrialização e digitalização de processos possível no sector, sendo que há também uma mescla de ambos. Numa perspetiva puramente digital, podemos criar uma jóia sem o lápis tocar no papel, de forma toda digital. A peça é desenhada num software de modelação 3D, é impressa numa impressora de prototipagem rápida e executada. É possível um processo completamente digital na joalharia e existe essa capacidade cá, tal como temos artesãos capazes de executar as peças mais elaboradas com toda a mestria. É esta dualidade e capacidade de responder aos desafios que também nos coloca num patamar bastante diferente.

​​​​​​​Quais lhe parecem ser as principais tendências do sector para 2021?
O principal desafio é o de saber quão rapidamente teremos a pandemia sob controlo. A partir daí estamos prontos para retomar o ímpeto de crescimento que vínhamos tendo desde 2019. A AORP fez, ainda durante a pandemia, um trabalho em colaboração com a Deloitte para aferir o resultado dessa aposta na internacionalização. Foi apresentado no último mês e deu-nos alguns indicadores. O sector necessita de mais investimento público para produção, promoção, modernização e digitalização, para que a nossa presença internacional seja cada vez mais forte. Sem descurar o mercado interno, que, pelos números, é claramente muito importante para o sector, o crescimento por via da internacionalização é algo ao que não podemos escapar. A capacitação das nossas empresas para a transição para a indústria 4.0 também é algo incontornável, quer pelos ganhos de produtividade e tempo de resposta, quer por nos permitir ombrear com os nossos concorrentes mais diretos. Além disso, temos de desenvolver canais digitais de promoção e venda a nível internacional e estamos apostados, para chegar a esse fim, numa proposta de alteração legislativa de forma a agilizar a pesada regulamentação do sector, de forma a torná-lo mais ágil. Nesse sentido, e para apoiar as empresas nessa retoma, aproveitamos para o lançamento da campanha “Together We Stand”, que passa uma mensagem de união para o sector, união na complementaridade, na diferença, ao sabermos que, apesar dos papéis e funções diferentes que temos, há o objetivo comum de promoção do sector. Além disso, vamos, em conjunto com as empresas, investir cerca de três milhões de euros na promoção da internacionalização, através da presença em feiras, em missões comerciais, missões comerciais inversas… Temos o próximo ano bem preparado. Para avaliar o sector, fizemos dois inquéritos durante o primeiro estado de emergência e iremos em breve fazer nova análise do sector, para saber mais concretamente como está nesta altura do Natal.

Apesar de todas as dificuldades, em cada crise costumam surgir oportunidades. Pode esta ser uma oportunidade de crescimento no médio/longo prazo para a afirmação da indústria joalheira e relojoeira nacional no exterior?
Claro que sim. O facto de o sector praticamente todo ter tentado manter-se em funcionamento trouxe já para algumas empresas a oportunidade de crescer. Os espaços não ficam por preencher, sempre que se abre um espaço alguém o vai preencher, e queremos que seja a ourivesaria e relojoaria portuguesa. Durante este tempo de pandemia, tivemos algumas empresas que, não sendo tantas como gostaríamos, souberam ocupar espaços que deixaram de ser ocupados por concorrentes. Quando a pandemia se resolver, olhando para trás vamo-nos lembrar de quem cumpriu connosco, de quem satisfez encomendas. Penso que é mais um ponto positivo para a ourivesaria nacional ter feito este esforço que tanto custa de ter ficado em funcionamento para estar pronta para responder quando chegar a retoma.
 

Fonte: Jornal Económico